RESENHA: DOM CASMURRO, MACHADO DE ASSIS

Dando sequência a publicação dos 100 livros Top de Literatura Nacional segundo a revista Bravo!, falaremos hoje do Dom Casmurro, de Machado de Assis.

História sobre ciúme, adultério e a dúvida é obra-prima da narrativa psicológica e revela os fragéis limites da condição humana.



“Antes de continuar lendo a postagem, siga O Vendedor de Livros no Twitter e curta nossa Fan Page no Facebook, e mantenha-se informado e atualizado sobre o que de melhor acontece no Mundo Literário”.

Lançado 18 anos após Memórias Póstumas de Brás Cubas, Dom Casmurro (1899) é, numa primeira instância, um tanto diferente da obra com que Machado inaugurou a moderna ficção no Brasil. Não há experimentações formais, a história é contada em ordem cronológica e parece centrar-se mais no retrato psicológico de seus personagens.

De fato, o desenho dos estados internos de consciência, o quadro das motivações ocultas e a exposição dos sentimentos (o amor, o ciúme, a desilusão) animam o andamento do romance. Mas, como fez em Memórias Póstumas de Brás Cubas, Machado insere um narrador caprichoso, que manipula a história para seu proveito.
Bentinho, Dom Casmurro do título, conta sua trajetória a partir da infância, centrando-se na narração de sua amizade com a vizinha pobre, Capitu, com quem acaba se casando. Com o correr dos anos, Bentinho se convence de que a mulher o trai com o amigo Escobar. Assim, a história serve para apontar elementos que corroboram a suspeita: o transtorno de Capitu com a morte de Escobar (seus “olhos de ressaca” a teriam denunciado) e a semelhança do filho com o suposto amante são alguns deles. Capitu, porém, refuta a acusação, de sorte que a dúvida paira no ar até hoje, com defensores de ambos os lados: teria ela traído ou não o marido? A modernidade de Dom Casmurro reside justamente nessa ambiguidade insolúvel.
Os patrocinadores de Capitu (e detratores de Bento) mostram que o filho de D. Glória, à semelhança de Brás Cubas, age em consonância com sua classe. Membro da elite patriarcal, está acostumado a que os subordinados (a esposa, inclusive)acendam aos seus caprichos. Mas Capitolina é voluntariosa, plantando no coração do herdeiro a semente não dá dúvida sobre a traição amorosa, mas de algo mais insidioso, pois oculto: a usurpação de seu poder. Bentinho, claro, não suspeita disso, mas o leitor pode farejar a hipótese nos desvãos da narrativa. É claro que essa leitura, mais sociológica, é apenas uma das possíveis sobre o romance, que tem inegáveis qualidades estritamente literárias.
Nunca se há de chegar a uma conclusão definitiva sobre a traição de Capitu. O que importa, porém, é o fato de Bentinho, igualmente impossibilitado de dispor da prova definitiva, ter optado pela acusação e por construir a história a fim de validar sua hipótese, e sua decisão existencial, pois prefere a separação a viver com a dúvida da mácula (ou com a própria mácula). A dúvida não se dissipa, porém, e junto com o remorso oculto (pela falta que ele pode ter cometido) corrói-lhe a alma, transformando-o no ser sombrio configurado no epíteto Dom Casmurro.
Constata-se, assim, que a verdade jamais pode ser apreendida em sua plenitude. A inovação de Machado foi ter investido nas inconstâncias de um narrador não confiável, demonstrando que é o ponto de vista que determina, em última análise, a realidade, e que os procedimentos do observador atraiçoam, por princípio, a própria observação.
Após Dom Casmurro, Machado publicou Esaú e Jacó (1904) e Memorial de Aires (1908), que com Memórias Póstumas de Brás Cubas e Quincas Borba (1892), compõem o famoso quinteto de sua fase madura.

Crítica retirada da Revista Bravo!

Qual a sua interpretação desta obra, afinal de contas, Capitu traiu ou não Bentinho?

Um abraço e boas leituras a todos!!!

Wellington Ferreira, é um vendedor de livros extremamente apaixonado pelo que faz. Não consegue se imaginar mais vivendo longe deles. Além disso, é blogueiro nas horas vagas e corinthiano fanático (e dos loucos) em período integral. Atualmente trabalha como consultor de vendas em uma distribuidora de livros e presta assessoria de mídias sociais para empresas. Interessados, é só entrar em contato.

10 comentários

  1. Eu gostei desse livro, bom eu sempre achei que ela traiu – Bentinho tinha tudo para ser corno. rssss

    E você o que achou?

    responder
  2. Olá, ótimo artigo. Sou fascinada pela obra de Machado. Do Casmurro é um dos melhores livros que li. Quanto à sua questão, a pergunta irá sempre pairar no ar, gaças à genialidade do autor. Pelo que sei, há indicios para a acusação e para defesa de Capitu, no próprio livro. Basta lê-o com atenção. Eu prefiro a versão que diz que a traição de Capitu só existiu na mente doentia de Bentinho. Fiz um artigo sobre isso no meu blog e convido-o a visitá-lo quando quiser…
    O link é:
    http://todolivro.blogspot.com/2009/09/o-silencio-de-capitu.html

    Abraços! Parabéns pelo blog!
    Mária

    responder
  3. Olá Cláudia!

    No entendimento houve a traição, apesar de não ficar claro em virtude da genialidade e perspicácia do Machado. Na minha opinião ele (Machado) deixou isso implícito na história em virtude das convenções sociais da época, que colocavam a mulher como um ser inferior ao homem e desprovido de qualquer direito. Imagina em pleno século XIX o reboliço que iria causar um romance onde a mulher “chifra” o marido com o melhor amigo. Machado foi esperto, e resolveu deixar com que cada um tivesse o seu entendimento do fato.

    Um abraço e obrigado pela visita!!!

    responder
  4. Olá Maria!

    Como você bem disse, existem indícios que corroboram as duas versões, e cabe a cada um tirar as suas conclusões. Eu acredito na traição, e creio que o Machado só não a deixou explícita em virtude dos motivos que citei no comentário acima.

    Um abraço e obrigado pela visita!

    responder
  5. Olá, Wellington. Obrigada pela visitinha e pelos elogios. Olha, você tem um ótimo argumento, mas eu tenho outros que posso enumerar com calma em outra hora, prometo. Por enquanto, o importante é que concordamos que o livro é genial. Abraços!

    responder
  6. É Maria esta discussão vai longe…

    Abraços!

    responder
  7. Brasileiro é um negócio complicado, quando o assunto é adultério (mesmo que seja somente uma suspeito), o povo é enfático: Traiu sim! Corno! Chifrudo!

    Já dizia o ditado: “onde há fumaça, há fogo”

    E há o detalhe de que Bentinho, não sei se por paranóia ou cornice aguda, via traços de amigo em seu filho com Capitu.

    Considerando os dois itens acima, mas o fato deu ser brasileiro: traiu sim! Bentinho é o corno mais comentado do mundo literário.

    Daniel
    http://www.ideiascorporativas.wordpress.com

    responder
  8. Salve, salve, salve… Grande Machado de Assis.

    Forte abraço.

    responder
  9. Olá Daniel!

    É verdade, é meio cultural isso, né! O pré julgamento é uma característica intrínseca em nós seres humanos.

    Olá IL!

    Grande Machado, é verdade!

    Um abraço e obrigado pelas visitas!

    responder
  10. :) Respondendo ao Daniel:
    Você acha que brasileiro não perdoa, que há um exagero nisso tudo, mas como todo brasileiro, botou lenha na fogueira, né?
    Mas talvez por ser mulher, vou na contramão: traiu não. O Bentinho é que era paranóico.
    A discussão vai longe…Abraços a todos!!

    responder

Deixe um comentário